Preparo do extrato de própolis legal *
* Este artigo foi extraído da Edição de março de 2003 da revista eletrônica MENSAGEM DOCE da APACAME

 

Profa. Dra. Etelvina Conceição Almeida da Silva
Profa. Titular-Visitante, UESC, Bahia


1. INTRODUÇÃO

Por vários anos apicultores vêm preparando extrato de própolis, naturalmente procurando fazer sempre o melhor. À falta de um parâmetro oficial, geralmente entendia-se por “melhor” aquele que, além de preparado higiênicamente e livre de contaminações, apresentasse a coloração mais carregada, como indicadora de alta concentração. A pesquisa, entretanto, evidenciou que, nem sempre o mais escuro ou mais concentrado é melhor, em termos de atividade biológica e poder medicinal.            
Felizmente, agora já temos um padrão oficial para o extrato de própolis: trata-se da INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº 3, DE 19/01/2001 do Dep. de Inspeção de Produtos de Origem Animal, do Ministério da Agricultura. O anexo VII desta Instrução fixa e descreve a composição, propriedades físicas e químicas, características sensoriais, acondicionamento e demais condições a que um extrato deve obedecer para ser considerado apto para comercialização e consumo.            
Apesar da complexidade do assunto o apicultor que deseja continuar a preparar seu extrato não tem razões para desanimar. Isto porque, em princípio, por mais que varie em teores de flavonóides, compostos fenólicos, coloração etc., toda a própolis, tal como preparada pelas abelhas é boa, é “legal”. Então temos que nos preocupar, durante o processo de preparação do extrato, em não deteriorar o produto e assegurar que ele se mantenha dentro de alguns limites que estão ao nosso alcance. É o que mostraremos a seguir.


2. LOCAL DE TRABALHO

Parece assustador falar em laboratório. Porém, laboratório é o lugar onde se labora, isto é, onde se trabalha, nada mais. O seu tamanho, complexidade e custo dependem do tipo de trabalho e do volume das atividades. Para nosso caso, é pouco o que necessitamos. É preferível que tenhamos um pequeno cômodo, somente usado para este fim. Em sua falta, porém, trabalharemos em nossa sala de extração que, necessariamente, possui boas condições de isolamento, higiene, iluminação e ventilação. 


3. MOBILIÁRIO E EQUIPAMENTOS

Uma mesa ou bancada, com superfície resistente, impermeável e lavável (Fórmica, azulejos, vidro etc.), um pequeno armário e uma banqueta; pia com água corrente, geladeira e uma balança com capacidade para 15 a 25kg completam nossos equipamentos (claro que podemos aproveitar geladeira e balança que usamos para outros fins). Utensílios: entre outros, os frascos onde faremos a infusão, Beckers, provetas graduadas, mexedores, bombonas ou galões para armazenar o extrato, pipetador de borracha, tripé, funil e filtro, que pode ser aquele de filtrar café. O tamanho (capacidade) destes utensílios será escolhido de acordo com a quantidade de extrato que queremos preparar de cada vez (cada lote). Para o apicultor pequeno a médio, vidraria com 0,5 a 2,0 l e galões de 5 a 10 l são ideais. Este “sistema de produção” pode ser duplicado ou triplicado, para aumentarmos a produção temporariamente, sem necessidade de investimentos em equipamentos profissionais.

4. PREPARO DA MATÉRIA PRIMA
4.1. PREPARO DO SOLVENTE


Muitos tipos de solvente podem ser utilizados para “extrair” a própolis, isto é, dissolver e separar a parte resinosa e balsâmica, que contém os princípios ativos, dos componentes insolúveis e com pequena ou nula atividade farmacológica, que formam a chamada borra da própolis.
O solvente mais usado é o álcool etílico, também chamado ETANOL. Este é o álcool presente na cachaça e nas bebidas alcoólicas em geral. Entretanto, não podemos usar qualquer álcool (etanol) para fazer o nosso extrato. Muitos álcoois contêm aditivos e impurezas que os tornam impróprios para o consumo, principalmente o METANOL, que é um veneno mortal. Por isso somente usamos álcool de grau alimentício, como é o caso do álcool de cereais.
Além do álcool de cereal podemos usar o álcool neutro, que é obtido a partir da cana, porém é purificado, o que o torna apropriado para uso medicinal.
Estes álcoois podem ser adquiridos nas farmácias e em lojas que fornecem produtos para preparo de alimentos e bebidas (tais como essências, corantes e aditivos para alimentos).
Entre outras condições que a já citada norma brasileira de identidade e qualidade (Anexo VII da Instrução Normativa nº 11, de 20/10/2000 da SDA/DIPOA, do Ministério da Agricultura) estabelece para o extrato de própolis, está a exigência que o álcool do extrato deve ter no máximo 70º GL (7 partes de álcool para 3 partes de água, o que equivale a 70% de álcool absoluto).
Como o padrão do álcool hidratado do comércio é 96 GL, contendo aproximadamente 4% de água, teremos que lhe adicionar mais 26% de água para totalizar 30%, reduzindo seu grau para os 70% desejados. A água que usaremos para este fim será preferivelmente destilada. Em sua falta, poderemos utilizar água filtrada e esterilizada.
É importante observar que a norma acima citada estabelece que a proporção álcool:água é em V/V, isto é, medida em volume, seja ml, litros ou outra unidade decimal.

Cálculo: Em uma unidade de solvente teremos 70% de álcool puro Os restantes 30% do solvente serão água 70% de álcool puro arrastam 0,04 x 70% = 2,8% de água Usaremos portanto 70+2,8 = 72,8% de álcool 96 Completaremos com 100 - 72,8 = 27,2% de água Resumo: 72,8% + 27,2% = 100% do solvente.              

Para transformarmos estes números relativos em absolutos, basta-nos multiplicar as porcentagens pela quantidade de solvente que queremos preparar. Por exemplo, para preparar 1 litro ( = 1.000ml) do solvente, multiplicamos:  

0,728 x 1000 = 728ml de álcool 96º
0,272 x 1000 = 272ml de água


4.2. PREPARO DA PRÓPOLIS BRUTA PARA A EXTRAÇÃO

Ao se colher a própolis das colméias, não se deve embolar ou compactar os fragmentos, pois isto dificulta ou até inviabiliza sua limpeza e classificação. Porém, se na hora de fazer o extrato encontramos estas inconvenientes pelotas de própolis, nosso primeiro cuidado é desfaze-las, expondo os fragmentos e eventuais impurezas, como abelhas, pedaços de madeira, de favo, folhas, traças e outras inclusões.            
A seguir verificaremos o restante da própolis, removendo todas as impurezas que encontrarmos.            
A própolis obtida com auxílio de coletores é geralmente mais limpa e pura do que aquela obtida por raspagem, o que facilita bastante esta etapa do trabalho e propicia a obtenção de extratos de excelente qualidade.            
Se for desejado poderemos, nesta etapa, pulverizar toda a própolis, com auxílio de um liquidificador ou outro equipamento apropriado. Isto facilitará e apressará a extração (Veja o item 7, adiante).            
Finalmente, pesamos e separamos a quantidade de própolis que usaremos.


5. MISTURA FINAL

O regulamento do Ministério da Agricultura determina que o extrato deve ter, no mínimo, 11% de extrato seco (ES), também denominado sólidos solúveis totais (SST). Isto quer dizer que podemos preparar extratos com diferentes níveis de ES, contanto que seja de valor igual ou superior a 11%.            
Em conseqüência, cabe-nos decidir qual o valor de ES que desejamos para o nosso extrato. Nosso critério pode ser o mercadológico, usando como argumento de venda a cor bem escura e a alta densidade do nosso extrato. Nosso critério pode também ser o do rendimento: quanto mais baixo o valor de ES (até o limite legal) maior a quantidade de extrato que poderemos obter por unidade de peso de própolis bruta. Ainda, podemos ter como objetivo a maior atividade farmacológica ou uma densidade padrão, característica da nossa marca, etc.            
Na prática entretanto, a pré-definição de uma densidade não é tão fácil, porque a solubilidade da própolis é altamente variável. Em geral, é de cerca de 50%; quer dizer, de cada quilo de própolis que colocamos em infusão, 0,5kg é solubilizada e 0,5kg é insolúvel em álcool, constituindo a chamada borra da própolis. Este valor pode variar entre menos de 40 até quase 60% da própolis.            
A atividade farmacológica deve ser o melhor critério, visto que preparamos o extrato exatamente para aplicações medicinais. Trabalhos de pesquisa determinaram que a maior atividade do extrato ocorre com 8% de ES. Como 11% é o nosso limite mínimo, deveremos tentar obter esse valor, que combina maior atividade com maior rendimento.            
Na prática, considerando a variação da solubilidade dos lotes da matéria-prima, é recomendável que preparemos o assim chamado extrato de própolis a 30%, expresso em M/V. Esta porcentagem se refere à matéria prima, não ao extrato propriamente dito. Com 50% de solubilidade aproximada desta matéria prima, obteremos realmente um extrato com cerca de 15% de ES, o que de antemão nos garante que nosso produto estará dentro do limite legal.            
Neste caso, a fórmula da nossa infusão será:                                     
Própolis bruta = 30%                                   
Álcool 70% = 70%


6. DETERMINAÇÃO DA QUANTIDADE DE EXTRATO A SER PREPARADA

Até agora falamos em porcentagens e proporções. Temos agora que definir em peso e/ou volume, as quantidades de materiais que usaremos. Para isso podemos nos basear na quantidade de material (própolis) que temos, na capacidade dos vasilhames que dispomos ou na quantidade de extrato que queremos.            
Para transformarmos esta fórmula em valores absolutos, basta-nos multiplicar seus valores relativos (porcentagens) pelas respectivas unidades: quilo (massa) e litro (volume).
Teremos então:
                                    
Própolis bruta: 0,30 x 1 kg = 0,3 kg                                   
Álcool 70%: 0,70 x 1 l = 0,7 l
             
Em resumo: dissolveremos 300g de própolis em 700ml de álcool 70%            
Para qualquer outra quantidade multiplicaremos as respectivas procentagens pela nova quantidade.

7. PREPARO DO EXTRATO

Como exemplo, vamos pôr em infusão a quantidade básica de 300 g de própolis. Preparamos os 700ml de álcool a 70% (misturando 509,6ml de álcool 96% com 190,4ml de água - Figura 1) Colocamos no frasco a própolis e despe-jamos o solvente sobre a própolis. Em seguida tampa-mos o frasco.
Esta mistura será agitada ou mexida a cada três dias, durante 30 a 45 dias ou mais, a depender do tamanho dos fragmentos de própolis que usamos e da temperatura ambiente (Figura 2).
Para apressar a extração em caso de urgência, a própolis bruta pode ser previamente fragmentada ou pulveri-zada, com um liquidi-ficador industrial ou ou-tro equipamento. É me-lhor, entretanto, evitar este procedimento, devi-do ao risco de alteração ou perda de parte dos componentes ativos da própolis, devido às altas temperaturas geradas pelo atrito entre a própolis e as pás do liquidificador. Não percebemos este aquecimento porque rapidamente o calor se dissipa no metal e na própolis, baixando a temperatura quase instantaneamente. Pode-se constatar sua ocorrência, por exemplo, pelos depósitos de própolis fundida que se formam sobre as lâminas do liquidificador.

Para mexer (agitar), utilizamos uma pá ou colher de madeira (usada exclusivamente para este fim), de plástico atóxico como a poliamida ou de aço inoxidável. Preferimos os primeiros materiais, por serem mais suaves e reduzirem o risco de partir o frasco por uma batida acidental. O frasco deverá permanecer em local fresco e abrigado da luz solar direta.  

 

Após a última agitação, deixar decantar por três ou mais dias. Depois, remover o extrato sobrenadante com auxílio de um sifão             
Este extrato, geral-mente denominado EXTRATO-MÃE, como já vimos, tem aproximadamente 15% de extrato seco (ES).

8. PROCESSAMENTO DO EXTRATO

O extrato-mãe deve ser filtrado, o que pode ser feito com simplicidade com filtro de papel de laboratório ou mesmo, com o filtro de papel para café.             
Após a filtragem o extrato está em condições de ser transferido para embalagens padronizadas, rotulado e comercializado.
Porém, como a norma brasileira de identidade e qualidade do extrato de própolis fixa como mínima a concentração de 11% de ES, poderemos adicionar mais álcool (a 70%) ao extrato-mãe, até atingir este valor. É importante lembrar que isto não diminui o valor terapêutico do extrato, antes, o estimula. Como referido antes, foi determinado experimentalmente que o extrato mais ativo é o de 8% de ES. Desta forma, não apenas estamos aumentando o rendimento como melhorando a eficácia do nosso produto.            
Como a borra está embebida em extrato, podemos adicionar-lhe mais álcool, agitar, decantar e retirar um segundo extrato, de concentração bem mais baixa, a depender da quantidade de álcool que foi adicionada. Este segundo extrato, entre outras aplicações, pode ser utilizado com vantagem, em lugar de álcool puro, para baixar a concentração do extrato-mãe.